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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Teatro Inominável estreia a peça “poderosa vida não orgânica que escapa”, sobre um edifício no centro de uma grande cidade que resolve desabar

Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) apresenta a temporada de estreia que vai de 04 de agosto a 24 de setembro de 2017

Com oito anos de existência e trabalho continuado no Rio de Janeiro, a companhia carioca Teatro Inominável, com direção artística e de produção de Diogo Liberano, apresenta a temporada de estreia de sua sétima criação, o espetáculo poderosa vida não orgânica que escapa, com dramaturgia de Liberano e direção de Thaís Barros. Durante oito semanas, de 04 de agosto a 24 de setembro de 2017, sempre de sexta a domingo às 19h, o Centro Cultural Justiça Federal recebe em seu palco esta nova criação que buscou na linguagem das histórias em quadrinho o seu estopim criativo.


O espetáculo estreou em novembro de 2016 integrando a XVI Mostra de Teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e concluindo a formação da diretora Thaís Barros em Artes Cênicas: Direção Teatral – Foto de Thaís Grechi.

Criada pelo renomado quadrinista americano Will Eisner, a graphic novel “O Edifício” (1987) inspirou a criação do Inominável ao apresentar a vida melancólica e solitária de pessoas que frequentavam um mesmo edifício numa grande cidade. A partir dessa referência, poderosa vida não orgânica que escapa apresenta um pequeno e velho edifício de três andares no centro de uma grande cidade. É “ele” o protagonista da história apresentada, “aquele” que vê, sente e ouve tudo o que acontece em seus interiores e também em seu exterior. É a partir dessa “sensibilidade” do edifício que, num dia, ele vem ao chão, decidindo desabar e levando consigo seus três moradores.

Criada originalmente por Diogo Liberano, indicado aos prêmios Cesgranrio e Shell em 2015 pela dramaturgia da performance “O Narrador” (criação anterior do Teatro Inominável), a dramaturgia de poderosa vida não orgânica que escapa busca ressaltar outros tipos de vida que não apenas a humana. Para isso, aposta no ponto de vista de um pequeno edifício que, num dado momento, se revela perplexo frente aos vícios e fraquezas do ser humano.


 A iluminação de Diogo Liberano e Thaís Barros, essencialmente feita através do uso de lanternas, amplia pequenos objetos que, através da sombra, ganham uma dimensão maior – Foto de Thaís Grechi.

Em sala de ensaio, a diretora Thaís Barros investigou, junto ao elenco e à equipe de criação, maneiras diversas de transpor a linguagem dos quadrinhos para a cena teatral. Nas palavras dela: “A linguagem dos quadrinhos sempre me entusiasmou principalmente por imergir o leitor no universo particular de cada narrativa e ao mesmo tempo fazer com que sua própria imaginação complete todas as lacunas que ficaram em branco. É longe de ser uma história com figuras”.

Assim, encontrou-se uma encenação em que o espaço vazio do palco vai sendo, progressivamente, preenchido pelo jogo de deslocamentos e trajetórias dos três atores (André Locatelli, Diogo Liberano e Livs Ataíde), pela composição de luzes e sombras e, sobretudo, pela atmosfera musical composta originalmente por Rodrigo Marçal, importante colaborador do Teatro Inominável.
Nas palavras do dramaturgo Diogo Liberano, em poderosa vida não orgânica que escapa “fazemos uma crítica à condição humana que segue rendida por posturas carregadas de culpa, egoísmo e intolerância. Diante dessas posturas, pensa o edifício, seria melhor deixar de ser, não? O gesto deliberado de vir ao chão – tomado pelo edifício – manifesta não uma desistência na raça humana, mas um chamar de atenção para os rumos que a humanidade, na contemporaneidade, parece estar tomando”.


No elenco da temporada de estreia no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF): André Locatelli, Diogo Liberano e Livs Ataíde – Foto de Thaís Grechi.

Além do dramaturgo Diogo Liberano e da diretora Thaís Barros, outros integrantes do Teatro Inominável marcam forte presença nessa nova criação. Andrêas Gatto, Gunnar Borges e Márcio Machado assinam a direção de movimento do espetáculo. Juntos, eles investem num trabalho que busca nas oposições corporais e no jogo entre equilíbrio e desequilíbrio um modo criativo e expressivo de manifestar no corpo dos atores-personagens a instabilidade do edifício prestes a ruir.

A produção do espetáculo também é assinada por outra integrante da companhia, Clarissa Menezes, reforçando o trabalho coletivo e autoral do Inominável. Para ela: "Trabalhar com arte e estar em cartaz com uma peça teatral hoje em dia é um ato de resistência e também de insistência. Quando tudo parece desmoronar e, de fato, desmorona, escolhemos criar como um modo de responder e enfrentar esses tempos difíceis em que vivemos".

Ações complementares à temporada da peça

Nada brilha sem o sentido da participação
Ação artística literária-dançada a partir do poema
"Conversa com a Pedra" de Wislawa Szymborska
Criação e performance: Gunnar Borges
De 05 de agosto a 23 de setembro de 2017
Sábados às 18h30 no hall de entrada do CCJF
Duração: 15 minutos | Entrada Gratuita

Quanto vale 1 corpo?
Performance criada a partir do espetáculo "Concreto Armado" do Inominável, traz à tona restos, ruínas e ruídos desta criação da companhia que insiste em se manter viva
Criação e performance: Laura Nielsen
De 06 a 27 de agosto de 2017
Domingos às 18h30 no hall de entrada do teatro do CCJF
Duração: 15 minutos | Entrada Gratuita

Oficina de Dramaturgia
Com Diogo Liberano
De 06 a 27 de agosto de 2017
Domingos, de 14h às 17h, na Sala de Cursos do CCJF
Inscrições de 21 de julho a 04 de agosto de 2017 através do e-mail
Valor: R$ 200,00

Oficina de Direção Teatral
Com Diogo Liberano e Thaís Barros
De 03 a 24 de setembro de 2017
Domingos, de 14h às 17h, na Sala de Cursos do CCJF
Inscrições de 17 a 31 de agosto de 2017 através do e-mail
Valor: R$ 200,00

Equipe de Criação

Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Thaís Barros
Atuação: André Locatelli, Diogo Liberano e Livs Ataíde
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Cenário: André Locatelli, Eduardo Ferrera, Livs Ataíde, Pedro Henrique Müller e Thaís Barros
Figurinos: Bárbara Faccioli e Juliana Valle
Direção de Arte: Marcela Cantaluppi
Direção de Movimento: Andrêas Gatto, Gunnar Borges e Márcio Machado
Colaboração de Movimento: Natássia Vello
Iluminação: Diogo Liberano e Thaís Barros
Orientação de Direção: Jacyan Castilho
Orientação de Figurino: Suely Gerhardt
Assistência de Direção: Ana Paula Gomes
Assistência de Iluminação: Gabriela Villela e Luiz Buarque
Registro Audiovisual e Fotográfico: Thaís Grechi
Design Gráfico: Diogo Liberano
Bilheteria: Waldivia Juncken
Assessoria de Imprensa: Teatro Inominável
Produção: Clarissa Menezes
Realização: Teatro Inominável e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Serviço

poderosa vida não orgânica que escapa[1]

Temporada: de 04 de agosto a 24 de setembro de 2017
Dias e horário: sextas, sábados e domingos, sempre às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal (CCJF)
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro – Rio de Janeiro/RJ
Telefone: 3261-2565
Bilheteria: de 16h às 19h

Sinopse: No centro de uma grande cidade, um pequeno e velho edifício de três andares decide desabar levando consigo seus três moradores. Imagine se as coisas começarem a fazer isso com os que se autonomeiam seus criadores.
Classificação Indicativa: 12 anos.
Duração: 60 minutos.
Gênero: drama.




[1] O título do espetáculo é redigido todo em letras minúsculas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Dois Mil e Dezesseis: Ano Nomeável

Hoje, vinte e nove de dezembro de dois mil e dezesseis, completamos oito anos de Teatro Inominável. Era o mesmo dia, em dois mil e oito, quando começamos o processo de criação-produção de NÃO DOIS. O marco temporal de nosso surgimento não foi o da primeira reunião entre os artistas que formariam a companhia, muito menos a data exata de nossa primeira estreia. Nosso aniversário começou lá no desejo, quando se desejou – ainda sobre uma folha de papel – começar aquilo que jamais saberíamos o que poderia vir a ser.

É final desse ano dois mil e dezesseis e, pela primeira vez, em nossa existência, vivemos um ano que não foi inominável. Não estamos falando sobre nós, mas sobre o mundo, sobre a realidade na qual estamos e da qual fazemos parte. Dois mil e dezesseis. Eis um ano fácil e tristemente nomeável: ano golpista, ano Golpe, ano intolerante e da intolerância, ano Fascista, odioso ano do Ódio e dos atentados às manifestações de liberdade. Neste ano que agora se encerra, estivemos – mais do que antes – ainda mais reunidos, convictos do que Peter Pál Perbart nos lembra:

As artes inventam novas possibilidades de vida, e talvez caiba às artes essa incumbência rara de nos devolver a crença no mundo, neste mundo, neste presente, não crença na sua existência, de que não duvidamos, mas crença nas possibilidades deste mundo engendrar novas formas de vida, novos modos de existência. Não se trata de uma ingenuidade pueril, nem de um otimismo cego, mas de uma avaliação concreta no mais alto grau.

Falemos então, sem ingenuidade, do concreto. Começamos o ano fazendo faxina na nossa sede, um apartamento em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde eu moro desde dois mil e oito. Jogamos o lixo fora e limpamos o caminho para um novo ano. No primeiro semestre, a inominável Flávia Naves - visando terminar a composição de sua dissertação de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) - fez uma residência artística em nossa sede, período no qual ela escreveu e também realizou a defesa de seu CORPO FIGURA.

Começamos o ano tramando um punhado de novas criações que foram alimentadas por estudos e experimentações e que virão à cena no próximo ano: SOB O AMOR, um estudo sobre o ódio, e YELLOW BASTARD, um estudo sobre a intolerância. Ainda em janeiro, começávamos a compor a nossa INOMINÁVEL OCUPAÇÃO, para celebrar nossos sete anos de vida. Foram muitas reuniões, muitos telefonemas e muitas mensagens; sonhamos juntos e muito, e muito também realizamos. Sobretudo isto: realizamos; agimos e fizemos com que coisas acontecessem conosco, com os outros, aqui e ao redor. Coisas acontecendo por toda a parte.

De dois de março a vinte e oito de abril de dois mil e dezesseis, nossa INOMINÁVEL OCUPAÇÃO ocupou o Centro Cultural Justiça Federal (CCJF). Foi um grande investimento que fizemos. Investimento de tempo, de espaços, de esforços. Investimento financeiro, nosso e também de muitas outras e muitos outros. Fizemos uma campanha de financiamento colaborativo pela internet e conseguimos dinheiro para custear os gastos que nos fizeram acreditar que não eram tão importantes assim: o pagamento aos artistas que conosco trabalham e trabalharam.



Artistas e pesquisadores que fizeram parte dos ENCONTROS DO PTI, realizados durante a INOMINÁVEL OCUPAÇÃO - Foto de André Locatelli


Durante as nove semanas de ocupação, apresentamos temporadas de todos as criações que compõem o nosso repertório: VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA (peça nascida dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – em dois mil e dez), SINFONIA SONHO (também nascida na UFRJ em dois mil e onze) e a performance O NARRADOR (dois mil e quatorze). Compartilhamos os estudos da companhia para mais vinte artistas-pesquisadores e nos encontramos por oito domingos seguidos para discutir as relações entre performance e teatro, criação artística e criação de cidade: foram os encontros do PTI – PERFORMANCE E TEATRO (INOMINÁVEL). Realizamos ações juntos, estivemos juntos, criamos vínculos que permanecem disponíveis ao que já veio e ao que ainda pode vir a ser.

Ministramos uma OFICINA DE CENA, DRAMATURGIA E PERFORMANCE, a partir de nossas criações, falando e ouvindo, observando, trocando e recebendo, tudo junto. Mais uma vez: encontro, encontrar, encontrares. Estivemos presentes na ocupação do Palácio Capanema, antes e depois do golpe dado pelo golpista Michel Temer e seus aliados. E lá, naquele prédio onde o Ministério da Cultura já teve sede, no chão do mezanino, no meio de tantos artistas, sonhamos o presente e cuidamos dele como único modo de podermos seguir adiante.



Júlia Marini e Mayara Yamada, atrizes convidadas para a temporada de VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA na INOMINÁVEL OCUPAÇÃO, junto aos inomináveis Márcio Machado e Andrêas Gatto - Foto de Thaís Grechi

Ali, entendemos juntos que uma nova criação da companhia seria a peça de formatura na UFRJ da nossa inominável Thaís Barros. E assim foi: PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA estreou na UFRJ em novembro e ano que vem também ocupará outros espaços da cidade e do país. A peça apresenta um edifício, ocupado por três moradores, que certo dia resolve desabar levando todos juntos.

Recebemos um convite do Teatro Voador Não Identificado e estivemos juntos nos ensaios finais da criação O FIGURANTE, novo projeto deles (e que retorna em dois mil e dezessete). Viajamos para algumas cidades com O NARRADOR e com SINFONIA SONHO. Mais encontro. Tudo concreto e tangível, ao mesmo tempo em que esse ano mesquinho ia nos tirando a vontade – e a capacidade – de continuarmos vivos fazendo isso que amamos fazer.



A ação MODO DE #03, intitulada MASSA RÉ, foi realizada na sexta-feira 01 de abril de 2016 a partir dos estudos realizados nos ESCONTROS DO PTI. A proposta inicial foi Elilson. O programa: um grupo de pessoas, vestidas com camisetas brancas (com inscrição 2016 na frente e 1964 no verso), caminham lentamente e de costas da Cinelândia até à Central do Brasil - Foto de Francisco Costa

Nunca antes ficou tão evidente o quanto o nosso fazer – como o de inúmeros outros artistas – é fazer a contrapelo, fazer consumindo o corpo e suas energias para gritar ao mundo que se a violência assumiu seus autores, nós, do lado que apanha, assumiremos também nossa revolta, nossa resistência, nosso punhado de outras propostas. Sim, somos uma companhia teatral de esquerda, companhia mortadela e comunista, somos vândalos e, sem dúvida alguma, somos cia off do off da off-broadway, e, por tudo isso, somos inomináveis, porque o rótulo jamais dará conta de nos contornar posto não nos amedronte a possibilidade de nos tornarmos quem ainda não sabemos ser.

Veio então a nossa MOSTRA HÍFEN DE PESQUISA-CENA em sua terceira edição: Modos-de-Produção. Veio não porque nos pediram, mas sim porque quisemos. Ainda somos um tanto ultrapassados, criando junto e a partir do desejo e não dos manuais institucionalizados. Nossa inominável Adassa Martins sempre repete: “joga para o universo”. E as estrelas que brilham sobre nós são desejos querendo precipitar em efetiva realização. Olhamos ao céu e fazemos acontecer um ou outro acidente: cai uma estrela no meio da gente e assim vai-se compondo a criação, tudo concretamente.



Lívia Ataíde, Pedro Henrique Muller e André Locatelli no elenco de PODEROSA VIDA NÃO ORGÂNICA QUE ESCAPA, formatura na UFRJ da inominável Thaís Barros com dramaturgia de Diogo Liberano - Foto de Thaís Grechi


Nossa MOSTRA HÍFEN seria em novembro, foi parar em dezembro. Conseguimos algum dinheiro, conseguimos muitos parceiros e profissionais que se interessaram na nossa busca. Discutir modos de produção, tudo hifenizado, pensando modos-de-produção como discussão primordial para a criação numa época tão indiferente à arte. Foram dezessete dias repletos e intensos. A inominável Natássia Vello, diretora de SOB O AMOR, ao gravar um vídeo falando sobre o porquê de uma companhia realizar uma mostra de teatro, falou algo que não consegui mais esquecer: ela disse que fazer uma mostra é um modo de ampliar, para fora da companhia, todas aquelas implicações que nos fazem perseverar e continuar fazendo o que estamos aprontando.

E assim foi. Discutir modos-de-produção é discutir a autonomia do artista-produtor, é abrir espaços para que possamos seguir fazendo de diversas maneiras porque cada momento pede um modo de fazer. Não estamos prontos ainda, ainda não morremos, ainda estamos respirando, portanto, por que acreditar que haverá um único modo de fazer? Os modos e meios estarão sempre carentes de atualização e quem atualiza é o nosso desejo. Temos o direito de poder fazer do jeito que queremos. Do modo como podemos, não apenas através das maneiras vendidas e disponibilizadas. Perdemos a inscrição em vários editais. Aquelas que fizemos não resultaram em nenhuma aprovação. Nenhuma novidade. Se tivermos energia, tentaremos de novo, caso não, seguiremos porque o dínamo que nos faz urgir é outra moeda que não apenas o dinheiro.



Os inomináveis Andrêas Gatto, Márcio Machado e Laura Nielsen apresentam as primeiras investigações de SOB O AMOR, criação dirigida por Natássia Vello e que abriu seu processo na terceira edição da MOSTRA HÍFEN DE PESQUISA-CENA - Foto de Anna Clara Carvalho


Nossa inominável Carolline Helena segue morando e trabalhando em Natal/RN, compondo uma criação toda dela. E lá eu estive, por perto, junto, conversando e trocando sobre a possibilidade nossa de efetivar outros mundos. E assim fizemos. E assim ela segue fazendo. LA PALOMA é uma realização compartilhada com o Inominável, uma lufada de narrativa e teatralidade, um compor pequeno e delicado – um armar de cabana como quem arma um cometa e parte ao insondável.

A foto que abre esta nota foi tirada ainda durante a nossa MOSTRA HÍFEN, que aconteceu de dois a dezoito de dezembro. Durante este período, fizemos uma reunião de final de ano. Mais uma reunião. Agora, escrevendo sobre ela, senti um clima diferente se comparada à reunião do final de dois mil e quinze. Estava mais escura, mais cansada, talvez até com menos perspectivas. Mas é preciso cuidado para cuidar do que de fato temos. E cautela ainda maior para lidar com os desejos do que ainda – a nós – não veio.



Carolline Helena, inominável morando em Natal/RN, apresenta e experimenta a criação LA PALOMA - Foto: Divulgação.

Lembro agora que num dado dia deste ano, uma amiga me perguntou como a gente – o Teatro Inominável – fazia para conseguir seguir juntos. Eu fiquei perplexo. Não soube o que responder. Espantou-me que pudesse ser tão impossível assim fazer algo junto. Eu disse a ela que a gente sabia conversar sobre os problemas, junto aos problemas, com eles deitados em nosso colo e, disse ainda que, se possível, ainda conversávamos em roda. Eu disse a ela que o nosso laço não era matrimonial, que tínhamos um acordo sim, mas que ele dizia respeito a nossa mútua responsabilidade por um mesmo filho: Paternidade Devidamente Dividida.

O Inominável é o nosso filhote com oito anos já. Cresce rápido, dá trabalho, faz merda e faz o olhar brilhar por tanto orgulho. Ele fala, ele brinca, ele nos desafia. Ele não cansa e, de súbito, dorme e fica ali, detido na imensidão dos seus sonhos (que só ele vê). Eu, um dos pais, confesso: meu filho é um moleque meio bicha. Puxou os pais, com certeza. Gosta de se vestir com outras roupas, pinta as unhas, usa peruca, sabe que tudo é jogo e ai de nós, pais, se não brincarmos a sua realidade. Ele sabe gritar agudo e bem grosso. O Inominável nos prova, a cada café da manhã, que a vida nunca foi nem nunca será coisa pronta. Ele nos prova – e nos chama a provar – que as possibilidades nunca se encerram posto a impossibilidade também seja – desde sempre – um saboroso possível. Não sabemos ainda o que ele quer se tornar: seus dentes acabaram de aparecer e brilham no meio da escuridão destes tempos. Não sabemos se ele vai sobreviver muito tempo, nem se morreremos antes de ele atingir sua maioridade. Não temos herança para deixar, mas amor sobra, o amor em nós e de nós, ele jorra. Por isso estamos juntos. Assim, juntos, cruzar os dias e anos desse mortificante mundo é um florescer precioso.


Registro tirado durante a apresentação de NABO OU UMA GRANDE IMPROVISAÇÃO SOBRE EU E VOCÊ, peça do Grupo Barka que participou da terceira edição da MOSTRA HÍFEN - Foto de Anna Clara Carvalho


Que dois mil e dezessete seja uma intensa luta contra o cinismo que venceu este dois mil e dezesseis. Se um dia nos obrigarem um nome, e se pudermos escolhê-lo, provavelmente ele será Honestidade Radical. Que venham tempos mais honestos, radicalmente mais honestos. Uma época em que a ironia seja trocada por uma palavra olho-no-olho, por um gesto mão-na-mão, por uma ação-junta, ação que junta. Ano onde o hífen costure as diferenças que têm medo de conversar. Horas nas quais o homem perceba que não há minuto disponível para esperar um segundo outro chegar: tudo acontece agora.

Saudações inomináveis,
Diogo Liberano, diretor artístico e de produção do Teatro Inominável

O Teatro Inominável é Adassa Martins, Andrêas Gatto, Carolline Helena, Clarissa Menezes, Diogo Liberano, Flávia Naves, Gunnar Borges, Laura Nielsen, Márcio Machado, Natássia Vello, Thaís Barros e Thiago Pimentel.