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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Dois Mil e Dezessete: Ano Interminável

De fato, esse ano de 2017 não vai terminar nunca. Não porque não vá terminar (está quase chegando!), mas sim porque o que vivemos nesse ano parece ter aberto questões que ainda não respondemos o bastante; questões que seguem alimentando respostas e proposições outras.

Vivemos a precarização – seria melhor assumir que se trata da “destruição” – da produção cultural junto às esferas públicas e privadas. Assunto espinhoso e difícil de contornar. Na cidade do Rio de Janeiro (para não mencionar outras cidades do estado nem outros estados e cidades do país), depois da mobilização de inúmeros artistas desde dezembro de 2016 (e bem antes disso), em junho desse ano, foi confirmado o calote monumental – e histórico! – da Secretaria Municipal de Cultura e do recém-eleito prefeito Marcelo Crivella relativo ao Programa de Fomento às Artes 2016. Em resumo, 25 milhões de reais previamente destinados à cultura da cidade e aos profissionais das artes não foram pagos.


Defesa da dissertação de mestrado "Teatro (Inominável) - Modos de Criação, Relação e Produção" de Diogo Liberano

O Inominável não havia sido contemplado por esse Programa, no entanto, não é sobre a gente nem sobre quem foi contemplado somente, é sobre uma comunidade inteira, sobre uma cidade e sua produção cultural. O calote instituído pela Prefeitura do Rio de Janeiro impossibilitou o acontecimento de uma série de projetos artísticos, minou encontros que viriam a se dar e, sobretudo, fraturou a já tão difícil odisseia da vida profissional em arte no Brasil.

É esse o cenário do ano que não terminou e nem terminará. Desmantelamento do fomento artístico municipal. E mais: espaços (públicos e privados) sendo fechados e/ou sistematicamente precarizados, censuras inúmeras travestidas de argumentos estapafúrdios etc. Esse ano não acabou nem acabará, mas tal afirmação não é uma prece para alimentar a destruição de tudo, não mesmo, é um diagnóstico, é antes o saldo de um percurso e, sobretudo, um chamado à reflexão. Mais uma vez ao artista é destinada uma pergunta sem resposta, pergunta incessante: como sobreviver através de seu trabalho? Ou, sucintamente, como continuar?


Uma das ações realizadas durante a ocupação Que Legado no Castelinho do Flamengo.

Em companhia, completando hoje, dia 29 de dezembro de 2017, nove anos de trabalho continuado, essa mesma pergunta nunca cessou de se apresentar a nós. Ela nos acompanha, faz parte do estar em companhia e do ser artista. Estamos sempre nos perguntando como continuar e confundindo, intencionalmente, a palavra “continuar” com a “começar”. Continuar para nós é sempre um começar de novo. Cientes disso, desistimos das vitórias e dos totalitarismos para escutarmos sempre de novo e renovadamente o espaço em que pisamos e o tempo e as pessoas que nos abraçam.

Por isso fizemos acontecer novos pactos e acordos, novos encontros, renovamos antigas parcerias, novos e antigos sonhos ganharam outros corpos, tudo disponível como se fosse tudo pela primeira vez (de novo). Como nunca antes, o Inominável viveu um ano repleto de ação. Um ano estranho para nós, estranho no sentido de que nos trouxe uma diferença profunda, incontornável e inominável mesmo. Ano em que nossas criações foram menos peças de teatro, menos criadas em sala de ensaio, menos “ator texto direção” e mais rua, mais cidade, mais performance, mais “aquilo que não sabemos bem o nome”.


"Quanto vale 1 corpo?" - Performance de Laura Nielsen apresentada no Que Legado e também durante a temporada de estreia de "poderosa vida não orgânica que escapa".

Para nós, o percurso desse ano de 2017 tem sim um gosto final de revelação. Mudar a criação é mudar os modos de sua produção e, sobretudo, a nossa percepção frente aos dilemas de nossa época. Por isso mudamos, porque não queremos conquistar o mundo, porque não queremos dar certo, queremos é dar gostoso, ora; seguir experimentando aquilo que nosso desejo quer colocar entre os dentes e coloca!

Ano interminável esse porque sofremos também. Bastante. Entre nós. Em reuniões semanais, fomos percebendo juntos – e, por vezes, separados – que não dizer aquilo que queríamos ter dito, certa vez, faz mal para um e para todos os outros. Ano em que a noção de confiança nos puxou pelos cabelos e exigiu de nós mais honestidade e menos corpo mole, mais presença e menos fala. Sobretudo, mais calma. Ou seguiremos juntos porque nos confiamos ou não conseguiremos ir adiante porque aquilo que estamos fazendo é junto, sempre foi e continua(rá) sendo.


André Locatelli, Livs Ataíde e Diogo Liberano em "poderosa vida não orgânica que escapa", sétima criação do Inominável com direção de Thaís Barros.

Confiança, no entanto, eu acho que percebemos isso, não é coisa pronta. É tipo uma planta num jardim que ora precisa de mais ou menos água, ora precisa de outras plantas vizinhas, ora um animal vem e a pisoteia, confiança é coisa que não dá para confiar, não se pode acostumar a ela. Porque confiança é prática. Está sempre se fazendo e refazendo. A gente segue aprendendo como faz para ser a gente, a gente não está pronto ainda e talvez pronto mesmo a gente não queira estar.

E é assim que coisas acontecem, assim fazemos com que coisas aconteçam. E algo aconteceu esse ano. Pela primeira vez, nesses nove anos, este algo aconteceu. Já sabíamos que isso era necessário, já desejávamos isso entre nós e em nossas criações, mas existem coisas que não chegam à força. E assim fizemos brotar, quase despretensiosamente, um novo projeto que nomeamos TOMA ALEGRIA. Não está pronto, mas já esteve. Não quer ficar pronto porque não é sobre isso. Essa criação foi a nossa resposta à destruição que falávamos no início desse texto. Mais que uma resposta, foi uma nossa proposta.


Gunnar Borges (acompanhado de Keli Freitas) na performance "Nada brilha sem o sentido da participação" - a performance se apresentou durante a temporada de "poderosa..." e segue, junto a "O Narrador", se apresentando em mostras e festivais pelo país.

Um propósito; uma proposta. Faz anos, desde a nossa infância, era por volta de 2011, logo após a estreia de nossa quarta criação, “Sinfonia Sonho”, vínhamos conversando sobre tirar nossas criações do universo das denúncias. Queríamos criar algo mais positivo. Nem sequer tínhamos palavras para explicar o que sentíamos. Queríamos fazer algo mais possível. Queríamos nos voltar – gastar nossa energia – não mais denunciando a merda toda (tal como a víamos), mas sim, erguendo outras construções, abrindo outras passagens, oxigenando outros ares e encontros.

Pela primeira vez, foi em 2017, talvez por tão sufocados, talvez por tão sem perspectivas, confiamos em nosso encontro e deixamos que dele brotasse algo. Fomos às praças da cidade desse Rio de Janeiro. Cada semana numa. Encontros com um pano rosa. Uns presentes, outros não. Encontros alegres, sem sentido, encontros, enfim. E assim brotou algo que só viu quem esteve ali, naquela tarde única de setembro, na PUC-Rio, quando fizemos uma “abertura de processo”. TOMA ALEGRIA não só veio como virá de novo. Quando? Deixa 2018 chegar que a gente age isso.


A convite da artista-professora Ana Kfouri, participamos de uma aula no curso de Artes Cênicas da PUC-Rio para compartilhar o aprendizado adquirido no decorrer dos anos em companhia.

Poderíamos falar do patrocínio conquistado para outra nova criação (“Yellow Bastard” estreia em junho de 2018 no CCBB Rio de Janeiro); da participação no lindo projeto “Que legado!”; da defesa de mestrado que escrevi sobre a companhia (“Teatro (Inominável) – Modos de Criação, Relação e Produção”); de um processo abortado (“Sobre a brevidade da vida”); da lindíssima temporada de nossa última criação “poderosa vida não orgânica que escapa” (2016) que é também a primeira dirigida por outro inominável que não eu, no caso, a diretora Thaís Barros; das oficinas que demos (envolvendo tanta gente interessante e interessada); da aproximação com o curso de Artes Cênicas da PUC-Rio (seja em sala de aula ou na Mostra Bosque); das viagens a alguns festivais com “O Narrador” e “Nada brilha sem o sentido da participação”; da primeira apresentação internacional que fizemos com “O Narrador” em Buenos Aires (Argentina); da criação da cena “Como continuar” apresentada no seminário sobre Samuel Beckett no Sérgio Porto; e mais um montão de coisas lindas (com certeza me esqueço de mencionar várias delas)...

O que fica? Fica o que não está pronto. Fica só o movimento e suas possibilidades. Fica a certeza movediça de que quando se acostuma o corpo tende-se a acostumar também o pensamento (e vice-versa). Fica a compreensão de que nós, inomináveis, servimos a nossa companhia, mas que ela também precisa nos servir e continuar sendo aquilo que desejamos que ela seja. Fica o desejo de que nossa companhia siga abrindo caminhos e se acompanhando de gentes novas e antigas. É isso: abrição de caminhos e fazeção de encontros e parcerias.


Registro de Thaís Barros feito durante um dos dias de criação de "Toma Alegria" na Glória/Rio de Janeiro.

Com nove anos completos, parece que só agora estamos tomando consciência e gosto pelo corpo que viemos compondo juntos; consciência chama por responsabilidade. Parece que só agora temos algum contorno que confirma aquilo que desde os começos insistentemente dizíamos: que o nosso encontro seja guiado pelo desejo e não pela definição; somos máquinas desejantes, ora, não um manual sobre como ser uma companhia teatral de sucesso.

Por que “Inominável”? Ora, porque amamos tudo aquilo que as palavras escondem. Por exemplo, a palavra “sucesso”: substantivo masculino que diz respeito ao que sucede, que diz respeito ao acontecimento, a um fato e/ou ocorrência. Ora, nesses sentidos, somos sim uma companhia de sucesso. Uma companhia refém e amante-amadora dos acontecimentos! Como então vamos querer fechar sentidos e determinar caminhos se não vivermos o que ainda está aí para ser experimentado?


"El Narrador", "O Narrador", em apresentação realizada no Teatro Nacional Cervantes, dentro da programação da feira de livros "Volumen - Escena Editada" em Buenos Aires (Argentina).

Escrevo essas palavras e me emociono com o filho que hoje completa nove aninhos. Ele me olha desconfiado por usar o diminutivo. Eu o miro novamente e entre as peripécias de seus sonhos (que nem faço ideia de quais sejam) consigo vislumbrar sua coragem para desprogramar tudo aquilo que um dia eu pensei que ele pudesse ser e fazer. Por isso, destemido como ele, desejo que tudo isso que aqui foi escrito seja concordado e condenado, seja transformado e transmutado nos próximos dias e meses. Para que a gente siga ainda vivo e destemido, para que a contradição não nos apavore e sim nos impulsione ao incansável exercício da conversa e da escuta, do diálogo e da produção de imagens e gestos.

Dá trabalho estar em companhia. Por isso trabalhamos tanto. E por isso não nos falta trabalho: porque estamos juntos.


Andrêas Gatto, Laura Nielsen, Diogo Liberano e Flávia Naves em "Como continuar", uma experiência a partir de um conto de Samuel Beckett e que realizou única apresentação no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto.

À amizade e ao amor.

Adiante, Teatro Inominável.

Encontro de final de ano no apartamento do Gunnar - O Teatro Inominável é Thaís Barros, Flávia Naves, Gunnar Borges, Natássia Vello, Adassa Martins, Clarissa Menezes, Márcio Machado, Laura Nielsen e Diogo Liberano.



Por Diogo Liberano
Diretor artístico e de produção do Teatro Inominável 

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